Nelson Bortolin
Não importam os métodos. Para criar um clima político favorável à redução do tempo de descanso dos motoristas profissionais, vale até pagar para falsos caminhoneiros se manifestarem na Câmara dos Deputados. Foi o que ocorreu dia 29 de abril, quando os parlamentares aprovaram as mudanças na Lei 12.619, a Lei do Descanso (clique aqui e leia mais).
Quem flagrou e denunciou o pagamento foi o repórter André Shalders, do Correio Braziliense. O deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), um dos principais expoentes da bancada ruralista e defensor da mudança na lei, assumiu: “Era para tomar um lanche. Um grupo pequeno. Não acho nada disso estranho. No mundo inteiro é assim. Quem tem dinheiro faz o que quer com ele.” O deputado chegou a dizer que o dinheiro vinha de um sindicato de cegonheiros de Minas Gerais.
O Correio Braziliense apurou que os manifestantes, cerca de 60, eram funcionários da limpeza de uma empresa terceirizada da Câmara e o pagamento seria de até R$ 80 para cada. Clique aqui para ver o vídeo em que Shalders grava as cenas que flagrou no Legislativo.
Acostumado a fazer a cobertura na Casa, ele disse à Carga Pesada ser esta a primeira vez que vê algo do tipo. “É comum as entidades, como os sindicatos, levarem seus manifestantes para as galerias, mas pagar para isso eu nunca vi. Se ocorreu antes, ninguém flagrou”, afirma.
O repórter conta que, após a aprovação do projeto, quando ia embora da Câmara, percebeu a movimentação estranha na chapelaria. “Vi várias pessoas com envelopes brancos, outras com maço de dinheiro na mão”, afirma. Eram notas de R$ 20 e de R$ 50. Ele passou a seguir as pessoas. Algumas foram para o gabinete de Marquezelli. Depois para o 10º andar do Anexo 4 da Câmara, onde havia outra fila de pessoas recebendo dinheiro. “Vi duas funcionárias da Câmara com crachás, com calculadora e lista de nomes e um bolo de dinheiro”, conta.
Há 10 anos como editor do site Congresso em Foco, o jornalista Edson Sardinha também afirma nunca ter ficado sabendo de algo parecido. Para ele, trata-se de uma situação delicada, que merece mais destaque na imprensa. “Acho que não repercutiu muito porque estamos em ano eleitoral, tem CPI acontecendo, são vários assuntos que estão chamando mais a atenção”, afirmou. Sardinha considera grave o fato de um deputado “falsear a realidade para criar legitimidade” a um projeto de lei. “Se essa moda pega vai ser muito ruim para o Congresso”, declara.
Luiz Antonio Festino, diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT), acompanhou a votação na Câmara e alega ter visto poucos “caminhoneiros de verdade” nas galerias. Para ele, o fato de o deputado Marquezelli assumir que houve pagamento comprova: “a articulação feita para mudar a lei foi mais de responsabilidade do agronegócio do que do setor de transporte”. Os produtores reclamam que a Lei do Descanso aumentou o valor do frete.
Festino também criticou o deputado Vicentinho do PT, ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Na manhã do dia da votação, Vicentinho participou de um ato das centrais sindicais defendendo a redução da jornada de trabalho no País, de 44 para 40 horas. E, à tarde, defendeu o aumento da carga horária dos caminhoneiros.
Fonte: Carga Pesada
